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Pinga com gelo, faz mal ao dedo
Fim de maio de
2002. Estava em curso um passeio pela Serra da Canastra, MG. Era de manhã, por
volta das 9h00.
O ar frio da chapada começava a dar lugar
a um calor atípico para o outono mineiro, na medida que os raios do sol
preenchiam todos os espaços da pequena São Roque de Minas.
O cheiro dos fogões de lenha e de café
fresco, que saía das casas humildes no pequeno centro da cidade, começa e se
misturar com um forte cheiro de álcool, que passa a pairar no ar assim que um
grupo de feios, sujos e empoeirados jipeiros chegam em seus barulhentos
brucutus, e começam a desembarcar ruidosamente, acabando com a paz e o
silêncio que reinava no ar.
As galinhas, patos e porcos que andavam
calmamente pela rua, passam a pressentir o perigo, e correm para proteger e
abrigar suas crias, e ficam todos escondidos a assistir ao dantesco episódio
que se prenuncia.
Cambaleantes, alguns destes bárbaros,
invadem ruidosamente uma pequena mercearia, fazendo com que os já poucos
clientes que lá estavam, acelerassem ou mesmo desistissem de suas compras, e
rapidamente deixassem o lugar, todos assustados com o grupo que aparentava
estar possuído por Baco, o deus do vinho, tal o cambaleante andar e grande
dificuldade em articular frases com mais de três palavras.
Assustado com o grupo, o dono da pequena
mercearia manda suas crianças para dentro de casa se trancarem no banheiro, e
olhando para a pequena estátua de São Francisco que adorna uma das paredes do
estabelecimento, pede ao protetor do animais que controle aquela horda errante
que mais parece uma manada de búfalos enfurecidos.
O grupo se aproxima do balcão, fazendo
tremer aquele aquele velho e calejado homem, que havia deixado a dura lida no
campo em troco de uma suposta tranqüilidade no comércio daquela pacata cidade
do interior de Minas Gerais. Ledo engano, pensava ele naquele momento, em que
toda a sua vida passava velozmente em sua mente.
Aquele que aparentava ser o líder do
grupo, cabelos brancos, baixo e de óculos, caminha sem firmeza nas pernas, e
quase caindo sobre o balcão, demonstra pelo cheiro, que havia passado a noite
nos braços de muitas garrafas das piores cachaças da região.
- O Srrrrrrrrrrrrr. tem cerveja ?
pergunta o ébrio.
- Tem sim sinhô. E si num tivê eu vô
buscá, mas pur favô, num quebre nada na minha merceariazinha, ela é tudo que
eu tenho moço... Daqui eu tiro o sustento minha família... Por favor...
- Pode ficar traaaaaaanquilo moço Ic ! Ic
! Estamos sujos, mas somos gente de bem. Somos lá de Pirituba, o Sr. Conhece ?
Somos do Jeep Clube de lá . Já ouviu falar ? Quer que eu te conte a história
da fundação do Jeep Clube ? Ic ! Ic !
- Olhe seu moço, taqui a cerveja que eu
tenho, vou até dar um desconto proceis, pra mó di num atrazá seu passeio. Tem
uma cachoeira linda looooooooogo alí. É um tirim dispingarda. Só um 200km e
oceis chega lá. Tem uma água medicinar que cura 30 doença, até esta que o Sr.
aparenta não ter cura, ela ajuda a acarmá... Podi i qui oceis vão gostá !!
- Muito bom ! Mas o Sr. não tem gelo para
vender para nós ? A viagem é longa, e a cerveja gelada fica bem melhor... Não
que a gente socialmente não tome uma sem gelo, mas se tiver um gelinho ajuda !
- Gelo pra vendê num tem não... Mas pra
num atrasá o passeio docêis, eu vou dá o gelo ! Eu tenho um gelo que eu uso
aqui na mercearia, ocêis pode levá tudo ! Eu encho as garrafas de refrigerante
vazias com água e boto prá gelá. É só ocêis discasca e pronto !
- Muito obrigado moço. Eu tinha ouvido
falar que o pessoal daqui de Minas era muito bom com turista, mas estou
abismado com a sua disposição para nos atender bem !
- Fiquem a vontade ! Ocêis não sabe a
alegria que eu vou ter em ver ocêis partí por este mundão ! Só quero pidi
proceis num fazê muito baruio aqui na frente, pois do otro lado da rua fica a
casa de reporso da cidade. Purisso qui tem aquela praca de pruibido buziná e
aquela otra di Silenço....
- Pode ficar sossegado moço. O pessoal
não desliga os jipes porque tem medo de não pegar de novo. Mas os perkinhos
são todos silenciosos. Nem passarinho escuta se está ligado. Só pondo a mão no
capô para ver se está ligado... Mas nós já vamos rodar, é só colocar o gelo
nas caixas e tomar o rumo da cachoeira que o Sr. nos indicou !
- Pois não seus moço ! Eu num tô
reclamando não ! Deus me livre e guarde te achá ruim com uma turma de gente
qui nem ocêis ! Só tô ixpricando purque o Dotô qui cuida aí da casa de repouso
é o único dotô da cidade, e a gente tem qui respeitá ele. Ele é muito gente
boa, mas si ele invoca, depois é um probrema quando a gente pricisá qui ele
acode arguma infermidade!
- Pode deixar ! Nós somos desorganizados
mas somos educado. Aqui tem doutor e empresário, tem até tenente. É tudo gente
estudada e muito educada. PESSOAL ! Vamos quebra o gelo e cair no mundo !
Então a bandalheira começa. As garrafas
de gelo são jogadas na calçada sem o maior cuidado com o barulho. O barulho
dos motores agora e acrescido do bater de porta e caixa de ferramenta, a
procura de algo par partir as garrafas.
Um baixinho e gordinho, com cara de
batata, começa a esmigalhar uma garrafa com uma marreta logo abaixo da placa
de pede silêncio.
Do outro lado da rua, o ancião do grupo,
que é amparado pela neta para não cair, começa a tentar partir outra garrafa
com uma grande pedra. Ele arremessa o pedregulho contra a garrafa, e nas
poucas vezes em que acerta a garrafa, a mesma sai rolando pela rua, e ele
segue atrás dele arremessando a pedra.
O barulho e o burburinho é infernal. Não
tarda, e o médico responsável pela clínica de repouso sai a janela para
educadamente pedir silêncio.
Todos olham, diminuem o volume das
conversas, o gordinho com cara de batata sai de baixo da placa de silêncio e
atravessa a rua, e continua com a marreta achando que o barulho iria acabar
com isto.
O ancião do grupo, que em vista a seus
estado de embriagues nem tinha entendido o que o médico havia falado, continua
arremessando o pedregulho na garrafa, que continua a correr dele. A neta do
ancião, já cansada de amparar o avô, senta-se na sarjeta a passa apenas a
assistir o circo que que se apresenta na rua, e já atrai transeuntes que ao
longe assistem passivos aquela bandalheira.
Vendo a dificuldade do amigo, outra
pessoa do grupo, dono de uma carequinha reluzente, termina de engolir mais uma
cerveja quente e arremessa a lata contra a parede da casa de repouso, e parte
para tentar ajudar o colega a partir a garrafa de gelo.
- Vozzzzê é meu amigo ô ô ô coroa !! Eu
vôôôô te ajudááááá´! Você não está vendo que tem que parar a garrafa para
poder quebrar ela com a pedra ?? Faaaazzzzzz o seguiiiiiiiinte: Segura firme a
garraaaaaaaafa com a mããão que eu dou uma pedrada certeira e parto ela em
miiiiiil pedazzzzzos! Vai por mim !
Nisso, o médico responsável pela clínica
de repouso vem a rua para novamente pedir silêncio, agora já não tão
educadamente, e pede que além do silêncio, que não joguem mais latas na parede
da clínica, como se fosse necessário pedir isto, e pior, como se alguém fosse
lhe atender.
Quando o médico vira as costas, o barulho
recomeça. o cara de batata fala palavras de baixo calão e insiste que só é
proibido fazer barulho debaixo da placa, e eles estão do outro lado da rua, e
que a rua é publica, etc, etc, e recomeça com as marteladas, para a ira do
médico e dos internos da casa de repouso, que já estão todos na janela em suas
cadeiras de rodas.
Mais adiante, a cena dantesca que se
aproxima é inarrável.
O ancião, agora de cócoras, tenta segurar
a garrafa de gelo no chão, que parece ter vida própria e fica correndo de uma
lado para o outro, enquanto seu amigo carequinha, que mal consegue ficar
parado em pé, mira a garrafa com aquela enorme pedra em mãos.
- Zzzzegura esta droga de garrafa !
- Péééééra aí meu ! tá difícil !
- Dífícil táááááa´ficar segurando esta
pedra com esta ventania ! Vaaaaaaaaai
loooogo meu !
- Prooonto ! Tá firme ! Você não vai
errar não, não é ??
- Tá me i-i-i-i-i-i-istranhando cara ? Eu
tenho mira melhor que o tenente !
Segura esta garrafa que eu vou dar uma só
! Você vai ver !!!
- Então vai, confi-i-i-i-i-o em vozzê
amigããão! Manda brasa !
- É um... é dois.... e lá vão os
treizzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz !
- AI ! AI ! AI ME DEDO ! AIAIAIAIAIAI !
AI MEU DEDO SEU FILHO DA MÃE ! VOCÊ QUEBROU ME DEDO ! AI !
- Calma aí amigão ! Pelo menos quebrou o
gelo ! Põe uns caquinhos de gelo que pára de doer... Acho que não foi nada !!!
Calma... Até o Zico perdeu penalti, porque eu não posso errar também... E
poxa... olha o vento que está... Você não é meu amigo ? Tem que me
desculpar...
- AI ! AI ! AI ME DEDO ! AIAIAIAIAIAI !
AI MEU DEDO SEU FILHO DA MÃE ! VOCÊ QUEBROU ME DEDO ! AI !
- Calma... Tá doendo mesmo ??? Deixa eu
ver... Hum.... É... Acho que este ossinho para fora não devia estar aí... É..
parece que eu errei mesmo... Mas pera aí ... Vamos perguntar para o cara da
mercearia onde tem um médico aqui....
- AI ! AI ! AI ME DEDO ! AIAIAIAIAIAI !
AI MEU DEDO SEU FILHO DA MÃE ! VOCÊ QUEBROU ME DEDO ! AI !
- Ei Sr. !! Isto mesmo ! O Sr. aí da
mercearia !!! Onde é que tem um médico aqui na cidade ???
- Olha moço, eu já falei... Médico aqui
só o da casa de saúde aí da frente... Este mesmo que tá bravo pra xuxu cóseis
!
- Bravo nada ! E a ética profissional,
onde fica ? Ele não pode misturar as coisas... Só por causa de um
barulhinho... Mas muito obrigado pela informação, vou levar meu amigo lá agora
! E aí amigão, você quer ir no médico agora ou já passou a dor ?
- AI ! AI ! AI ME DEDO ! AIAIAIAIAIAI !
AI MEU DEDO SEU FILHO DA MÃE ! VOCÊ QUEBROU ME DEDO ! AI !
- Calma... Deixa de frescura e vamos
lá... Deixa comigo !
- TOC TOC TOC ! Bom dia... A gente
gostaria de falar com o doutor... É que tem um rapaz machucado aqui...
- Pois não ! Em que posso ajudá-los ?
- Sabe que é doutor... Meu amigo aqui
mexeu a mão quando eu vou tacar uma pedra na garrafa de gelo e a pedra acertou
o dedo dele... Agora tá este ossinho de fora e ela tá reclamando que tá
doendo... Dá para o senhor dar uma olhada ???
- Espera aí... Vocês são aqueles caras que
estavam fazendo a maior balbúrdia aqui na frente da casa de repouso ? E agora
querem que eu trate de vocês ?? Estão loucos ??
- Mas doutor, e o seu juramento ? O
senhor vai deixar uma pessoa de idade sofrendo... Só por causa de um
barulhinho de nada ????
- Barulhinho de nada seus filhos da mãe
??? E o s doentes da casa que tem ficar em repouso ? Já estão todos
estressados de novo por causa de vocês !!! Mas você tem razão ! Eu fiz um
juramento prometendo atender a todos... Pode trazer o seu amigo aqui... Não
vai doer NADA !
- Doutor... Não vai doer não ??
- Não vai não meu senhor... em mim não
vai doer NADA ! Coloque a mão aberta sobre a mesa e se concentre olhando par a
lâmpada no teto... Olhe bem... Já está vendo estrelinhas ?
- Não....
- Então veja agora ! TUM ! Pronto !
coloque o osso no lugar ! Doeu ???
- AI ! AI ! AI ! AI ME DEDO !
AIAIAIAIAIAI !
- Alguém pegue pro favor dois palitos de
sorvete na rua e me traga um pedaço de silver-tape, para que eu possa
imobilizar o dedo do elemento !
- AI ! AI ! AI ! AI ME DEDO !
AIAIAIAIAIAI !
- Obrigado... Pronto ! Resolvido ! Agora
quando você chegar em São Paulo, procure um bom ortopedista... Por enquanto
não vou receitar nada, pois pelo cheiro você já está tomando anestésico forte,
e não vai parar tão cedo, não é ?
Então continue assim que você nem vai
lembrar do que te aconteceu...
Só vai lembrar que pinga com gelo, faz
mal ao dedo... E BOA VIAGEM !
Causo originalmente publicada em
Dezembro/2003
na Revista Tribo Off Road - Número x - www.tribooffroad.com.br
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